Pode um ateu encontrar valor numa experiência de fé?

Toda a ciência assenta na capacidade que temos de teorizar, mas depois, se não houver experiências que mostrem o que é afirmado em teoria, ou teoria que explique uma diversidade de experiências, a teoria é colocada em questão. Com a fé não é diferente.

Muitos poderão ter fé com base numa teoria interessante. Mas enquanto não experimentarem a fé que afirmam ter em coisas concretas, a fé que têm é frágil.

A tua fé, ou ausência de fé, tem muito a ver com a experiência que tens e fazes todos os dias, a todo o momento e nas mais diversas circunstâncias. Não é uma questão de raciocínio, ou de estar confortável com as explicações que dão sentido às crenças. As crenças assentam em experiências e se não temos experiências sensíveis de fé, é muito natural não crer.

No caso do Cristianismo, toda a fé assenta numa experiência sensível. Baptizados com água, ungidos com óleo, comemos o pão, abraçamos quem está desiludido com a vida, vamos ao encontro daquele que sofre, vivemos cada momento do dia na tensão criativa do amor recíproco e tudo isto, e muito mais, levam a uma experiência quotidiana da fé. Não é um acto intelectual de encontrar a melhor explicação para os factos que nos leva à fé, mas o valor da experiência.

De que modo pode uma pessoa que não tem fé encontrar o valor de uma experiência de fé?

1. Enriquecimento recíproco

Quando partilhamos a nossa experiência com genuinidade, não pretendemos nada com isso senão dar a conhecer aquilo que nos faz ser como somos ao outro.

Pensemos num missionário que deixa tudo para dar a vida por outros povos, noutras nações, deixando o conforto do seu lar ou comunidade para ajudar na construção do lar dos que menos têm. Aquele que não acredita pode encontrar nesta experiência de fé de quem vê Jesus no mais pobre, um valor humanitário imenso.

2. Querer o bem do outro

No outro dia li a história de um não-crente jovem que não gostava de ser chamado ateu pela conotação anti-religiosa que essa expressão atualmente tem. Numa caminhada de montanha encontrou um senhor que tinha vertigens e estava a custar-lhe descer, pois, tinha – ainda por cima – os sapatos rotos. Este jovem trocou os sapatos com ele para que conseguisse descer em segurança e acompanhou-o com um pé descalço e o outro com um sapato roto. Diz ele que “se amares no momento presente, onde quer que estejas, as pessoas mudam”.

Este querer o bem do outro é característico de uma experiência de fé e, por esta experiência de um jovem não-crente, algo com valor universal.

3. Sentir-se irmão do outro

Para quem tem irmãos – e diria para quem não tem também – sabe como o relacionamento pode ser profundo apesar das diferenças nas convicções. Numa família, um filho pode ser padre e o outro ateu (conheço um caso), mas não é a diferença de convicções que os impede de um dar a vida pelo outro.

Uma experiência de fé Cristã vive-se acreditando que temos um Pai e, por isso, somos todos irmãos. Se nos sentíssemos todos irmãos, o mundo não seria diferente? É mais um valor universal que podes encontrar numa experiência de fé.

4. Viver pela fraternidade universal

Na sequência deste “sentir-se irmão do outro” surge a experiência de que somos todos parte da mesma família humana. Sermos irmãos uns dos outros porque todos filhos do mesmo Pai que nos criou é uma experiência de fé. E se a dúvida é algo que une Cristãos e Ateus, a fraternidade universal que emerge desta experiência de fé, abraçada em parte pelos ideais da revolução francesa, é também um valor universal – literalmente – que o ateu pode encontrar na experiência de fé.


Ao longo do tempo, o valor que encontramos nestes quatro pontos que provêm de experiências de fé foram reconhecidos como universais e humanitários, de tal modo que foram para além de uma experiência de fé e são hoje também experiência de quem não tem uma fé religiosa. Um ateu extremista pode sempre rebater o que acabei de afirmar porque não consegue libertar-se do cliché de que tudo o que provém da experiência de fé só pode ser mau. Um ateu humanista reconhece o valor da experiência de fé religiosa, mesmo que não se identifique com a sua origem, ou seja, a experiência de Deus.

Se és ateu humanista, conheces outros valores provenientes de uma experiência de fé? A tua experiência sem fé é importante para quem tem fé. Partilha-a.

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