Tanto tempo a discutir tão pouco…

Há quem pense que os que acreditam em Deus, em realidades espirituais, são pessoas irracionais que não pensam ou fazem uso da razão. Sinceramente, não estou a brincar, ainda há quem pense assim…

A afirmação não faz sentido quando olhamos para os diversos estudos, livros, revistas com arbitragem internacional, cursos universitários, doutoramentos, conferências internacionais, centenas de milhares de livros sobre ciência e religião. Se isto não expressa racionalidade, mas ficção, então, as pessoas que afirmam que um crente não faz uso da razão têm um sério problema psicológico.

O pensamento seguinte é: "não, um crente usa a razão, mas usa mal porque Deus é uma fantasia demasiado evidente". Também aqui noto que muitos ateus fazem afirmações como se fazê-las bastasse para que fossem verdadeiras. Não basta.

O problema é simples. Se eu acredito que apenas se considera real o que posso testar cientificamente, então, há muita coisa que irei considerar como ficção, mesmo que não seja. Por exemplo, ter uma ideia. Por que razão é possível ter uma ideia? Como justifico cientificamente ter uma ideia? E qual o método científico que me permite avaliar se o conteúdo dessa ideia a revela como uma ideia com conteúdo?

Eu tenho uma brincadeira com a minha mais nova que chamamos de "momento xubi-xubi". O diálogo entre nós resume-se a isto:

  • "Mapacuxibuximipi?" – pergunto-lhe.
  • "Melemapazipimeque." – responde-me.
  • "Ah! Mebezupimifizipi!" – exclamo eu.

E assim ficamos durante alguns minutos. Divertidos com um discurso irracional, mas que exprime momentos em que nos entendemos muito bem sem conteúdo nenhum. Como posso cientificamente avaliar o sentido e significado desses momentos? Expressam o amor entre pai e filha e não há nada cientificamente que me permita verificar que esse momentos são reais que não seja a experiência que faço deles.

A experiência.

O crente em Deus faz uma experiência de Deus. Entra em diálogo com Deus através do sentido e significado dos sinais da vida quotidiana. Um exemplo. A minha mãe não acreditava em Deus, mas tinha um colega que lhe falava de Deus Amor. Um dia de frio, no comboio, as portas demoravam algum tempo a fechar e, sabendo disso, quando viu uma senhora incomodada, procurou descansá-la dizendo que as portas se fechariam. Mas… não fecharam. A minha mãe experimentou um sentimento grande de vergonha pois as portas não fecharam. Nesse momento, pensou "Deus, se existes, arranja maneira de fechar aquela porta" Imediatamente a seguir, isto é, no preciso instante em que acabou de pensar, diríamos, de rezar, um senhor levanta-se e fecha a porta. Foi esse o momento da sua conversão. Fez a experiência de sentir-se escutada.

Os ateus vêem nisto uma casualidade e é. Mas a contingência presente na sequência dos acontecimentos mais normais que possamos imaginar pode dar sentido e significado à experiência que fazemos. O que impede o ateu de ver nesta experiência a presença de Deus é o limite que se impõe de que um acontecimento casual é apenas isso, casual. Mas isso não passa de uma opção filosófica. Se formos rigorosos, a única afirmação que podemos fazer é "não sei". Não sei se foi Deus ou se não foi Deus. Mas se foi Deus para ti, quem sou eu para afirmar o contrário?

A realidade possui diferentes níveis de compreensão. Não posso compreender o amor que sinto por alguém com base nas ligações sinápticas ocorrentes no meu cérebro, ou estudando as reações químicas hormonais. Não é o corte da tesoura que define o vestido, mas a direção impressa pelo estilista. Não é a ciência que define o seu traço original, mas a sua criatividade e sentido estético. A ciência é uma forma excelente de conhecer a realidade, mas não é a única e no discurso teológico encontro frequentemente um sentido e significado para diversas questões últimas que coloco como ser humano.

Há tanto para descobrir quando colocamos ciência e teologia em diálogo, que é uma pena perdermos por vezes tanto tempo a discutir tão pouco…

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